Um Velho Companheiro

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Durante centenas de milhares de anos, o sono dos seres humanos foi leve e abalado. Animais selvagens, predadores, grupos oponentes e ameaças de todo tipo impediam cada pessoa de dormir profundamente. Era preciso estar vigilante. Nossas noites começaram a ser tranquilas graças ao cachorro. A domesticação progressiva dos cães, com sua excepcional perícia de detectar intrusos pelo ruído e pelo olfato, latindo e dando sinal nas proximidades do acampamento humano, foi uma gigantesco alteração na existência cotidiana. Comparável à descoberta do fogo.



A aptidão de fazer fogo foi uma das maiores conquistas tecnológicas da humanidade. Permitiu o aquecimento, a iluminação; trouxe conforto e recentes técnicas, como o cozimento dos alimentos, a cerâmica, a metalurgia e tantos outros avanços. A domesticação do cachorro foi, quem sabe, o segundo de nossos maiores êxitos. Hoje o cão é encontrado em todo o mundo como animal doméstico.



Inadmissível, em nossos dias, uma população humana sem fogo e sem cachorro. O cão é um mamífero carnívoro da família dos canídeos. Teu nome científico é Canis familiaris, e a espécie descende de populações selvagens do lobo eurasiático (Canis lupus). Todo o cão, independentemente de raça, é descendente longínquo dos lobos selvagens e primo da raposa. O menor dos cachorros, como esses que várias senhoras levam dentro da bolsa, é descendente do lobo.



Durante bastante tempo acreditou-se que o homem domesticara o lobo, recuperando e montando seus filhotes. Hoje as pesquisas indicam quase o contrário. Foi o cachorro quem, de certa maneira, domesticou os seres humanos, acompanhando-os de remoto, persistindo, convencendo-os de sua utilidade e colocando-os a seu serviço. Um tanto como as hienas exercem com os leões e outros predadores, instituídos tipos de lobo seguiam os deslocamentos humanos a distância. A toda a hora prontos a recuperar resíduos alimentares, como ossos, ligamentos e restos com um tanto de gordura e carne.



Nômades, os caçadores-coletores primitivos eram comedores de carniça, como este os lobos. Com o tempo, os seres humanos também seguiam e observavam os mesmos lobos pra detectar uma presa ou carniça. Pra esses animais, era um excelente negócio falar sobre este tema uma carniça ou caça com os seres humanos, que apresentavam armas, cada vez mais sofisticadas, para obtê-la e defendê-la de outros predadores.



A aptidão em conceder sinal em caso da chegada de intrusos permitiu e garantiu a permanência desses animais dos acampamentos humanos. Uma interdependência estava desenvolvida. Trouxemos os filhotes pra dentro de nossas cavernas e cabanas. E imaginamos o simétrico: mitos e histórias em que lobos amamentam, tendo como exemplo, os fundadores de Roma ou Mogli, o rapaz-lobo (sem pronunciar-se no lobisomem). Com essa proximidade, começamos a compartilhar comida e doenças, ócio e serviço, adversários e ameaças. Os seres humanos puderam, finalmente, dormir.



Relaxar. Entrar num estágio de sono profundo, confiando sua noite e seus sonhos ao aguçado olfato e à audição superior dos companheiros cachorros. Faz insuficiente tempo: menos de 20 1000 anos de bons sonhos contra centenas de milhares de anos de pesadelo. Ao oposto do que muitos imaginam, no século 16, não foram facões, machados ou anzóis as tecnologias europeias mais desejadas e adotadas pelos indígenas brasileiros - porém o cachorro.



A explicação inicial da ampla difusão e do sucesso desta tecnologia europeia com os índios do Brasil foi teu exercício como defesa. Os cães foram mais úteis aos indígenas que o irreprodutível metal dos europeus. Pela chegada dos portugueses ao litoral brasileiro, a expansão territorial dos tupis ainda não estava consolidada, apesar do desaparecimento dos sambaquieiros e outros povos.




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As lutas entre tribos e aldeias eram permanentes e marcadas pela exoantropofagia. Mulheres e gurias eram as maiores vítimas: fáceis de capturar, imobilizar e transportar, mais indefesas que os guerreiros. Procurar água ou brincar remoto das aldeias era um traço grande. A existência concreta das mulheres e garotas nativas, naquela data, era muito afastado da mítica visão paradisíaca apresentada em alguns livros de história.



A introdução do cachorro pelos portugueses, essencialmente pelas mãos dos jesuítas, inaugurou nova era de sono calmo pros índios brasileiros. Em caso de aproximação de guerreiros inimigos, de dia ou de noite, os cachorros davam sinal e até atacavam os potenciais agressores. O cachorro foi integrado nas tribos como o primeiro mamífero doméstico - e continua sendo o mais excêntrico deles, capaz de seguir os passos do indígena, obedecer a suas ordens e realizar tarefas numerosas. Essa intimidade é tamanha que ainda hoje é comum notar índias amamentarem cães em seus seios ou prepará-los assados como alimento.



Como no caso dos primeiros grupos humanos, só tempos depois os índios descobriram a know-how de caça dos cachorros. Foi uma revolução em tuas vidas. Os cães são naturalmente prolíficos. Cada ninhada tem, em média, de seis a oito filhotes. São fáceis de reproduzir. Os cios são frequentes. As fêmeas aceitam diversos machos. Às vezes, uma ninhada tem filhos de incontáveis pais. E o intervalo entre partos é menor, o que permite à fêmea parir duas vezes por ano.