Pelas Profundezas Do Meus Sentimentos?


Quem viu o "Carteiro e o Poeta" não esquece. Mario, o carteiro, gruda no exilado Pablo Neruda para se alimentar de seu pote rico em metáforas e poesia. Ele queria, com uma mãozinha do poeta, encantar a encantadora Beatrice Russo, morenaça de cabelos fartos, exuberante em pureza e sensualidade, uma Gabriela mediterrânea.



Mario é um pouco primitivo, porém a convivência com Neruda faz dele um ingênuo sedutor, tão produtivo e charmoso que não apenas vitória tua Beatrice, como provoca suspiros em quem assiste ao filme. Com um sujeito galanteador chamado Rochinha ocorreu mais ou menos a mesma coisa. Não que tenha se derramado por Mario, todavia por ter incorporado o personagem carteiro em sua aptidão de emitir metáforas enfeitiçantes. Caiu pela rua a azarar o universo.



Ficou tão fissurado na linguagem figurada que até estudou. A princípio, tentou interpretar a ressaca como um pós-porre oceânico, entretanto quando caiu a ficha de que a ressaca machadiana eram ondas que iam e vinham, engolindo quem a contemplasse, ah, Rochinha teve um frisson. Saiu a narrar a todas as mulheres que passavam pelo seu caminho que estava sendo tragado por seus olhares.







    1. Quarenta e seis Certo de Voto






    1. 18 dezoito "Desequilibrismo" vinte e cinco de setembro de 2013






    1. Lúcia Vargas argumentou: 31/01/12 ás 18:02






    1. 28 "E-mail Maldito"






    1. 6 Cuidados que devia ter com um Pug






    1. Rechear os bonecos da malhação de Judas






is?NPAeP61jNM_9dKC-J_AEDzLFd5zv7K00azyBr2TNca0&height=236


A maneira deu certo. Abraços e pernas se abriam por onde andava, mesmo quando as flertadas não entendiam de Capitu e seus mistérios. Rochinha se aprimorou. Partiu para entender de cor e salteado frases de poetas, escritores e compositores de todos os matizes e qualidades inúmeras. Mergulhou em livros e mais livros, fuçou letras e mais letras, era o rei de karaokê de churrascaria.



Todo empenho tinha um destino: Belzinha, a tua Beatrice, amigo de trabalho, a quem há séculos roga uma noite de carinho e esplendor, desde que à primeira visibilidade fora flechado pelo cupido. Ou pelo bicho da ereção curiosa, entende-se lá. A moça, brejeira como uma flor, arredia como uma gazela e desconfiada como uma siamesa, era o tijolinho que faltava em sua construção.



Não lhe dava a menor bola, nem sequer de ping pong. Todas as tentativas de Rochinha eram burros se dando às águas. Flores, bombons, mimos, mensagens em MSN, torpedos eletrônicos e em guardanapos, indiretas em reuniões, bilhetinhos em post its, e a garota nada. Entupia as caixas de Belzinha de galanteios baratos, sem graça, sem imaginação.



Uma vez chegou a lhe enviar um recado em uma caixinha de bala: "Teu sorriso de Mentex refresca a minha boca". Até que, por capricho do destino, encontrou Belzinha saindo de automóvel do estacionamento da empresa. Tarde da noite, noite de serão, Rochinha joga-se à janela da motorista. Como um estudante aplicado em dia de prova, trêmulo e confiante ao mesmo tempo, ilumina-se de todos os poetas. Eu tenho em tão alto grau com o intuito de lhe discursar. Por que você, egípcia, me olha e me vira a cara? Passa sem olhar teu vigia catando a poesia que entornas no chão. Belzinha, não sou galinha.



A rima é indigente, porém a sinceridade é multimilionária. Tudo que vivi até sem demora foi um rio que passou em minha vida. Meu coração hoje é um balde despejado, meu pensamento é um rio subterrâneo. No momento em que chego em moradia, nada me consola, só o cachorro me sorri latindo. No entanto eis que a claridade dos olhos meus acha os olhos seus, duas contas pequeninas, qual duas pedras preciosas. Estou de quatro, no ato, teu gato e sapato. Meu sangue errou de veia se perdeu na bagunça do seu coração. Da vida, sou um infinito aprendiz. Você me lembra o mar! Rochinha inflou-se de expectativa. Pelas profundezas do meus sentimentos? Ou por que quando quebro pela praia, sou boniiiiiito, sou boniiiiiito? Não. Em razão de me enjoa.