Pelas Profundezas Do Meus Sentimentos?
Quem viu o "Carteiro e o Poeta" não esquece. Mario, o carteiro, gruda no exilado Pablo Neruda para se alimentar de seu pote rico em metáforas e poesia. Ele queria, com uma mãozinha do poeta, encantar a encantadora Beatrice Russo, morenaça de cabelos fartos, exuberante em pureza e sensualidade, uma Gabriela mediterrânea.
Mario é um tanto primitivo, contudo a convivência com Neruda faz dele um ingênuo sedutor, tão eficiente e charmoso que não só vitória tua Beatrice, como provoca suspiros em quem assiste ao vídeo. Com um sujeito galanteador chamado Rochinha aconteceu mais ou menos a mesma coisa. Não que tenha se derramado por Mario, contudo por ter incorporado o protagonista carteiro em sua maestria de emitir metáforas enfeitiçantes. Caiu pela rua a azarar o mundo.
Ficou tão fissurado na linguagem figurada que até estudou. A princípio, tentou interpretar a ressaca como um pós-porre oceânico, mas no momento em que caiu a ficha de que a ressaca machadiana eram ondas que iam e vinham, engolindo quem a contemplasse, ah, Rochinha teve um frisson. Saiu a manifestar a todas as mulheres que passavam pelo seu caminho que estava sendo tragado por seus olhares.
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- Lúcia Vargas citou: 31/01/12 ás 18:02
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A forma deu correto. Abraços e pernas se abriam por onde andava, mesmo quando as flertadas não entendiam de Capitu e seus mistérios. Rochinha se aprimorou. Partiu para conhecer de cor e salteado expressões de poetas, escritores e compositores de todos os matizes e qualidades numerosas. Mergulhou em livros e mais livros, fuçou letras e mais letras, era o rei de karaokê de churrascaria.
Todo empenho tinha um destino: Belzinha, a tua Beatrice, colega de serviço, a quem há séculos roga uma noite de afeto e esplendor, desde que à primeira visão fora flechado pelo cupido. Ou pelo bicho da ereção curiosa, domina-se lá. A moça, brejeira como uma flor, arredia como uma gazela e desconfiada como uma siamesa, era o tijolinho que faltava em sua construção.
Não lhe dava a menor bola, nem sequer de ping pong. Todas as tentativas de Rochinha eram burros se dando às águas. Flores, bombons, mimos, mensagens em MSN, torpedos eletrônicos e em guardanapos, indiretas em reuniões, bilhetinhos em artigo its, e a criancinha nada. Entupia as caixas de Belzinha de galanteios baratos, sem graça, sem imaginação.
Uma vez chegou a lhe enviar um recado numa caixinha de bala: "Seu sorriso de Mentex refresca a minha boca". Até que, por capricho do destino, encontrou Belzinha saindo de automóvel do estacionamento da corporação. Tarde da noite, noite de serão, Rochinha joga-se à janela da motorista. Como um estudante aplicado em dia de prova, trêmulo e confiante ao mesmo tempo, ilumina-se de todos os poetas. Eu tenho tal pra lhe apresentar. Por que você, egípcia, me olha e me vira a cara? Passa sem olhar teu vigia catando a poesia que entornas no chão. Belzinha, não sou galinha.
A rima é desprovido, entretanto a sinceridade é milionária. Tudo que vivi até nesta ocasião foi um rio que passou em minha existência. Meu coração hoje é um balde despejado, meu raciocínio é um rio subterrâneo. Quando chego em moradia, nada me consola, só o cachorro me sorri latindo. Contudo eis que a luminosidade dos olhos meus descobre os olhos seus, duas contas pequeninas, qual duas pedras preciosas. Estou de 4, no feito, teu gato e sapato. Meu sangue errou de veia se perdeu pela bagunça do teu coração. Da existência, sou um eterno aprendiz. Você me lembra o mar! Rochinha inflou-se de expectativa. Pelas profundezas do meus sentimentos? Ou por que no momento em que quebro pela praia, sou boniiiiiito, sou boniiiiiito? Não. Visto que me enjoa.
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