Pelas Profundezas Do Meus Sentimentos?
Quem viu o "Carteiro e o Poeta" não esquece. Mario, o carteiro, gruda no exilado Pablo Neruda pra se alimentar de seu pote abundante em metáforas e poesia. Ele queria, com uma mãozinha do poeta, encantar a encantadora Beatrice Russo, morenaça de cabelos fartos, exuberante em pureza e sensualidade, uma Gabriela mediterrânea.
Mario é um tanto primitivo, porém a convivência com Neruda faz dele um ingênuo sedutor, tão produtivo e charmoso que não apenas vitória tua Beatrice, como provoca suspiros em quem assiste ao vídeo. Com um sujeito galanteador chamado Rochinha aconteceu mais ou menos a mesma coisa. Não que tenha se derramado por Mario, entretanto por ter incorporado o personagem carteiro em sua maestria de emitir metáforas enfeitiçantes. Caiu pela estrada a azarar o mundo.
Ficou tão fissurado na linguagem figurada que até estudou. Primeiramente, tentou interpretar a ressaca como um pós-porre oceânico, entretanto no momento em que caiu a ficha de que a ressaca machadiana eram ondas que iam e vinham, engolindo quem a contemplasse, ah, Rochinha teve um frisson. Saiu a narrar a todas as mulheres que passavam pelo seu caminho que estava sendo tragado por seus olhares.
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A tática deu certo. Abraços e pernas se abriam por onde andava, ainda que as flertadas não entendiam de Capitu e seus mistérios. Rochinha se aprimorou. Partiu para ver de cor e salteado frases de poetas, escritores e compositores de todos os matizes e qualidades inúmeras. Mergulhou em livros e mais livros, fuçou letras e mais letras, era o rei de karaokê de churrascaria.
Todo vigor tinha um destino: Belzinha, a sua Beatrice, colega de trabalho, a quem há séculos roga uma noite de amor e esplendor, desde que à primeira visibilidade fora flechado pelo cupido. Ou pelo bicho da ereção curiosa, domina-se lá. A criancinha, brejeira como uma flor, arredia como uma gazela e desconfiada como uma siamesa, era o tijolinho que faltava na sua construção.
Não lhe dava a pequeno bola, nem ao menos de ping pong. Todas as tentativas de Rochinha eram burros se dando às águas. Flores, bombons, mimos, mensagens em MSN, torpedos eletrônicos e em guardanapos, indiretas em reuniões, bilhetinhos em post its, e a criancinha nada. Entupia as caixas de Belzinha de galanteios baratos, sem graça, sem imaginação.
Uma vez chegou a lhe enviar um recado em uma caixinha de bala: "Teu sorriso de Mentex refresca a minha boca". Até que, por capricho do destino, encontrou Belzinha saindo de automóvel do estacionamento da empresa. Tarde da noite, noite de serão, Rochinha joga-se à janela da motorista. Como um estudante aplicado em dia de prova, trêmulo e confiante ao mesmo tempo, ilumina-se de todos os poetas. Eu tenho em tal grau com finalidade de lhe dizer. Por que você, egípcia, me olha e me vira a cara? Passa sem ver de perto teu vigia catando a poesia que entornas no chão. Belzinha, não sou galinha.
A rima é pobre, mas a sinceridade é milionária. Tudo que vivi até neste momento foi um rio que passou em minha existência. Meu coração hoje é um balde despejado, meu raciocínio é um rio subterrâneo. No momento em que chego em moradia, nada me consola, só o cachorro me sorri latindo. Porém eis que a luz dos olhos meus localiza os olhos seus, duas contas pequeninas, qual duas pedras preciosas. Estou de quatro, no feito, teu gato e sapato. Meu sangue errou de veia se perdeu pela bagunça do teu coração. Da vida, sou um infinito aprendiz. Você me lembra o mar! Rochinha inflou-se de expectativa. Pelas profundezas do meus sentimentos? Ou por que no momento em que quebro pela praia, sou boniiiiiito, sou boniiiiiito? Não. Já que me enjoa.
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