Especial Seca: Dadá, O Resistente. Adão, O Diferente O Dia

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Assaré (Ceará) e Ouricuri (Pernambuco) - Dadá e Adão não se conhecem. O primeiro tem um rosário de secas para desfiar. O sofrimento de que Patativa foi poupado, Dadá faz pergunta de perpetuar. Resiste aos apelos dos netos pra que pare de trabalhar, como se resistir à seca do jeito tradicional fosse uma mortalha: levar o gado pra remoto, guardar as sementes, gastar o que não se tem em bodega pra obter comida. Muitos me chamavam de Dadá Rico porque comida nunca tive de obter.



De imediato Adão é só expectativa em Ouricuri. Fez do seu pequeno lote de terra uma agrovila experimental, onde não desmata, não faz queimadas e planta feijão e milho junto a palmas e mandacarus. Ao inverso da maioria dos sertanejos, ele não tem rebanho bovino, só bodes, cabras e ovelhas, animais mais resistentes à seca.



Com trinta e seis anos e dois filhos menores, Adão quer derramar tuas ideias como sementes de uma nova plantação pelo sertão. É tão infeliz quanto difícil correr pelo solo rachado do Açude do Caboclo, em Assaré, no sertão do Cariri. A aflição é ver de perto que o que restou de água é uma pequena poça esverdeada, imprestável pra dar de beber a gente ou a bicho.



A dificuldade é driblar os sulcos abertos na terra dura sem meter os pés nos buracos e se machucar. Mesmo assim, o agricultor Filomeno Marcos Evangelista, de setenta e três anos, levou ao açude teu jumento e sua égua, pela manhã cinzenta e abafada de quatrorze de junho. Quando viu a água sem serventia, tratou de apanhar a foice e foi catar madeira de forma a fazer uma cerca para evitar que os animais se atolassem pela poça na ânsia de matar a sede. O jumento, que nem sequer nome tem, e a égua, que ele chama de burra, são os companheiros que restaram a Dadá no trabalho diário. O gadinho de 40 cabeças foi levado pra pasto alugado em Nazaré, vila próxima ao Açude Canoas, onde ainda havia água em meados de junho. Foi isto mesmo que ocorreu em várias cidade do Inhamuns, como Aiuaba e Tauá.



Em Aiuaba, todas as barragens secaram, até mesmo a Barragem Velha, que nunca negara água. Tenho dois netos e eles a todo o momento me dizem para parar de trabalhar, me aquietar. Todavia não paro, irei trabalhar no tempo em que tiver força. Meu movimento nesse lugar é este, é terra e gado. Outro dia me ofereceram 1 mil reais pelo jumento. Dadá recebe um salário-mínimo como aposentado. Como a todo o momento plantou tudo o de ingerir, o dinheiro dava para os remédios e outras despesas.



Entretanto sem plantar desde o ano anterior, os recursos foram minguando pela capacidade em que a terra ia engolindo a pouca água restante. Em cinquenta e um anos de casado, eu nunca tinha feito isso. Do outro lado da via, em Ouricuri, Adão de Jesus Oliveira, de 36 anos, tem comida pra vender.




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Não que o Criador tenha livrado a cidade pernambucana do flagelo da seca, muito antes pelo oposto: Ouricuri é paisagem de conceder dó de tão seca deste inverno que não houve. Entretanto Adão não esperou chuva pra plantar. Usou a pouca água que tinha de forma inteligente, com canteiros feitos em cima de lonas e cercados por pneus de caminhão.



Em vista disso, a água fica retida por mais tempo, favorecendo o plantio. Usou adubo de resíduos orgânicos, que ele mesmo fez. E está colhendo o suficiente para o consumo da moradia e pra vender pela feira da cidade. Casado com Fabiana e pai de Fernando, de nove anos, e Fernanda, de seis, Adão é um sujeito experimentador.



Desde que chegou a Ouricuri, em 1986, removido do Piauí com uma comunidade inteira na construção da Barragem dos Algodões, ele botou pela cabeça que não ia mais largar terra para trás. Pela Agrovila Nova Expectativa um nome inspirador pra ele -, Adão teve o apoio da ONG Caatinga (Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores e Corporações Não-Governamentais Alternativas) para adquirir e aprimorar técnicas de convivência com a seca. Como, por exemplo, não reduzir os mandacarus pela base, pelo motivo de aí eles não crescem mais.



O Adão tem fabricado, a partir da vivência dele, condições pra viabilizar tal a fabricação de animais quanto a geração de alimentos. E mesmo no período mais seco ele ainda consegue gerar pra comercializar, não apenas para o consumo próprio, atesta Elka Macedo, da ONG Caatinga, apoiada por entidades internacionais, como a Action Aid. O início básico é a agroecologia, em que o plantio é consorciado entre plantas nativas, frutíferas e forrageiras (estas usadas basicamente pra alimentar os animais).