Em Pesquisa Do Tempo Perdido

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O tempo é a matéria-prima da minha profissão. Nada mais fazemos senão averiguar os homens no passado. O tempo paira a respeito todos os seres, inclusive inanimados. A passagem do tempo é real. Os calendários são construções subjetivas de diálogos humanos com as colheitas, a astronomia, as religiões e as demandas do mercado.



O fluir incessante medido em séculos ou segundos é alguma coisa inevitável para nós. Fala-se em relatividade de tempo e de espaço, cogitam-se equações quânticas (metáfora atual para tudo aquilo que eu almejo demonstrar e que não entendo), porém, admito, atrás da maioria dos historiadores como eu, há uma solene incapacidade com números.




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  • vince e seis/01/2018 10h17 Atualizado vince e seis/01/2018 10h17

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Sim, dominar fração do que aconteceu no passado vem acompanhado, com frequência, de problemas com a tabuada do oito. Volto ao tempo. Um ex-presidente do Uruguai (fácil localizar, é aquele honesto, pronto, nesta hora você não confunde com ninguém) afirmou, numa entrevista, uma ideia sábia. Ele lembrou que toda compra que realizamos é uma entrega de tempo para o vendedor. Então, no momento em que adquiro meu veículo novo, devo me lembrar que o gasto do carro à vista ou financiado foi obtido com horas de serviço. A compra é a entrega de parcela da vida passada pra usufruir de um entusiasmo futuro. As compras se repetem até que todo o tempo que eu tenho pra oferecer se esgote. Uma das vitórias de certo tipo de marketing é ter convencido milhões de pessoas que entregar tempo-existência por produtos é bom e divertido.



Z. Bauman diz que lojas são sempre farmácias em nosso universo: vendem produtos contra angústia, depressão, etc. Compramos pelo motivo de estamos felizes ou tristonhos, gastamos para perder nossa ação como sujeitos e transformar mercadorias e a nós próprios em equipamentos. Pro anglo-polonês, a grande ilusão consumista é a ideia de autonomia de consumo ou da decisão autônoma de consumo.



Somos, assim como, outdoors de marcas nas roupas, nos padrões e hábitos. O cogito cartesiano virou consumo, logo existo. A crônica é sobre isto tempo e não a respeito de consumo. Há uma ideia do dalai-lama, que insiste que gastamos a vida inteira trabalhando muito e perdendo a saúde pra ter dinheiro e, ao conclusão, estamos sem saúde e sem a coisa mais fundamental na vida: o tempo. Como se perseguíssemos um tempo melhor e que nunca chega e, ao fim, no momento em que ocorre, chama-se morte.



Logo você receberá os melhores conteúdos em seu e-mail. O suicídio é um tabu forte em religiões monoteístas. Exclui até do cemitério o ser que, de uma vez, diminui tua subsistência. Como eu prontamente alegou em palestras, o único suicídio ético hoje é "matar-se de tanto trabalhar". Um ato suicida me lança à condenação eterna e envergonha a família. Divertido, mas, como somos tolerantes com os suicídios lentos.



Ingestão de gorduras saturadas, inexistência de atividade física, apresentação ao sol sem proteção e algumas formas de suicídio parcelado são muito mais toleradas. Um pai de família que sente diante de um prato sobrecarregado de bacons e picanha gorda poderá receber aquele enxergar da esposa entre censura e afeto: "Como você adora gordura, meu amor!



Se ele levasse uma arma para a mesa e ameaçasse estourar os miolos, a ação da mulher, provavelmente, seria mais enfática para impedir o fim. Sim, aprendemos a tolerar coisas lentas e a julgar as mais rápidas. Dá certo como na experiência (clássica lenda urbana) dos sapos colocados em água quente e que pulam prontamente do local deletério. Pelo oposto, se a temperatura primeiramente fria da água fosse elevada em um grau por hora, os anfíbios ali ficariam até a morte. Tempo é existência. O maior assassino do tempo são as redes sociais. Meu mantra repete que quase toda ferramenta e técnica são neutras. Celulares, tablets, Facebook, Instagram e outros ajudam muito, fornecem infos, guardam o que podemos e registram coisas.



Claro, assim como infantilizam: não entendo mais surgir à padaria da minha esquina sem Waze. Mimar é imbecilizar. Meus aplicativos mimam meu narciso crescentemente vagabundo. Se as pessoas das enormes cidades fossem soltas pela natureza, seriam como canários-belgas montados em gaiolas douradas e incapazes de confrontar o mundo que formou nossos ancestrais. Viramos poodles exigentes e birrentos, esperando nossa ração e nossa cama.



Esquecemos uma questão que escapa a todo poodle: todo aquele que me apresenta bens e informações progride sobre isso minha alma e toma o meu tempo e o reestrutura a teu gosto. No Sul havia a sentença "gato de forno", aquele felino algo obeso e bastante demorado que, nos dias frios, sobe ao forno de pão que assou qualquer coisa há novas horas, procurando o calor agradável e descomplicado do ambiente.



Nosso tempo não é mais nosso. Quem resolve a respeito ele é o corrimento de mensagens e de imagens. A nuvem, a entidade abstrata de penoso explicação, é nosso novo deus onisciente, onipresente e onipotente. Estar pela nuvem é nossa metafísica atual. Onde é a nuvem? Quem guarda pode variar? Esse Potente Knox da memória é assim como o Hall 9000 da Odisseia no Espaço? Nosso tempo está nas mãos de máquinas e programas que, numa hipótese desagradável, são controladas por meia dúzia de illuminati no Vale do Silício. Numa hipótese desagradabilíssima, o punhado de illuminati é sob moderação por um pc. Aproveitem o tempo que resta. Agradável domingo pra todos nós.