Domesticação De Animais: Carinho A 4 Patas


Cachorro é como moça: basta comparecer perto de alguém para ganhar carinho e admiração. Gatos, tartaruguinhas e papagaios são igualmente convidativos a um afago. Debaixo do mesmo teto, os animais se misturam à existência dos homens trocando companhia e amizade, numa conexão muito além de qualquer significado utilitário. Cachorros, gatos, peixes e outros animais domésticos não são construídos para servir de alimento, como galinhas no fundo do quintal, nem tampouco pra ajudar no serviço, como burros de carga.



A paixão por bichos atravessa a história humana e independe da geografia. Num nação como os EUA, existem hoje 475 milhões de animais domésticos - dos quais quarenta e oito milhões de cães e 27 milhões de gatos - ou 2 para cada habitante. Estima-se que 10% dos brasileiros tenham um cachorro. Na França, a ligação é de 18 animais domésticos por 100 habitantes. Números significativos existem similarmente da Suíça ao Japão. É uma convivência sem fronteiras.



Todavia o que leva os homens no universo ainda mais urbanizado de hoje a apreciar a companhia de bichos? Antes de qualquer coisa, a história dessa combinação é muito mais antiga - vem do tempo em que as sociedades humanas não passavam de agrupamentos em que a organização familiar e social, bem como a divisão de tarefas, somente engatinhava. Ao assimilar a cultivar a terra, o homem do Neolítico entendeu bem como a formar animais como reserva alimentar. Disso nasceu a hipótese que explicava a liga gente-bicho exclusivamente em termos de domínio dos animais pelo homem.



Mais há pouco tempo, contudo, entrou em cena o conceito de co-melhoria, que indica na direção de uma espécie de pacto implícito entre bichos e pessoas, com vantagens para ambas as partes. Os lobos, primeiros animais domésticos e ancestrais dos atuais cachorros, ganharam ao conviver com o homem proteção contra predadores, comida sem depender disputá-la com outros carnívoros e até o abrigo aconchegante do calor das fogueiras. Os assentamentos humanos tornaram-se referência abundante de sobras de alimentos, que atraíram pássaros, que por tua vez atraíram gatos e desse modo por diante. À proporção que a convivência evoluía, os animais foram se convertendo também instrumentos de estima, em uma recorrência que permeia várias culturas e épocas.



Os opulentos habitantes da antiga cidade grega de Síbaris, no sul da Itália (da qual veio o adjetivo sibarita, pra apontar pessoa rica e indolente), e alguns membros da aristocracia ateniense tinham especial predileção pelos cachorros. Pela China, o cão pequinês era venerado pela dinastia Han, há por volta de 1 mil anos. Mesmo na Inglaterra do século XVII, sempre que o público criava cavalos até que morressem ou torturava bois e porcos ao matá-los, os monarcas da dinastia Stuart eram apaixonados por cães. Ao aparecer ao Novo Universo, os europeus constataram que tribos americanas mantinham animais de estimação. Era o caso dos navajos e seus gatos.



Se pros animais a proximidade dos humanos foi um achado, os homens bem como lucraram, tirando sustento da carne dos bichos que elaboraravam e utilizando tua potência para guarda, serviço e transporte. É direito que essa ligação originalmente utilitária de dominação foi sedimentando pela mente humana a consciência da inferioridade animal.



Daí a maltratá-los sem necessidade ou mesmo por entusiasmo foi um passo, como acontecia rotineiramente na Europa até o século XVIII. Esse sentimento é a parte mais grave da convivência entre homens e animais. O animal responde incondicionalmente ao afeto dos homens, analisa a psicóloga Maria Helena Scherb, dona de um cachorro e dois gatos. O psiquiatra americano Aaron Katcher, autor de diversos livros a respeito homens e bichos, vai mais longínquo. Pra ele, os animais influem diretamente sobre a saúde física e psicológica dos donos.



Nas ocorrências em que se está lastimoso ou solitário, um animal serve pra fazer companhia. Também, é qualquer coisa vivo para se tomar conta e para se constatar obrigatório, em razão de o bicho depende da pessoa. Em circunstâncias de tristeza ou de susto, o animal funciona como fonte de apaziguamento: ao tocá-lo e afagá-lo, podes-se obter algum sentimento de segurança.







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O ser humano tem uma necessidade de contato físico que é preenchida pelo animal, nota a veterinária Hannelore Fuchs, que se doutorou em Psicologia na Faculdade de São Paulo em 1987 com uma tese sobre homens e animais domésticos. Como se compreende, a existência atribulada das cidades enormes nem sempre deixa tempo (ou cabeça) para que as pessoas dêem ou recebam afeto na hora que desejam. Em vista disso, se o bicho homem mais próximo está ocupado, a escolha para vários é afagar o de 4 patas. Para uma moça, a título de exemplo, um cachorro pode servir como aula de vida: o bicho cresce diante de seus olhos, engravida, tem filhotes, fica doente, morre.



Por um lado menos prático e mais sentimental, o cachorro funciona como sucessor dos pais provavelmente ausentes num momento em que a garota precisa de amizade, ou mesmo quando ela luta com eles. Cada garoto que tenha um cão chora as mágoas para ele no momento em que fica chateado. Nem sequer é preciso ser moça pra bater longos papos com os bichos e neles encontrar conforto.



A apresentadora de televisão Xuxa diz que sabe e gosta mais de moças e animais do que de adultos. Em sua residência vivem 18 cachorros, 10 micos, quarenta periquitos, 3 papagaios, um tucano, dois faisões, duas codornas, um carneiro, e também - ufa! As crianças e os animais gostam do meu jeito de ser mesmo que esteja mal vestida e sem maquiagem, ao oposto dos adultos, observa Xuxa. Ela conta que quando tem problemas e quer desabafar discussão com os bichos, principalmente com o fila Xuxo: Eles só ouvem, não recriminam não respondem, e o Xuxo ainda chora junto comigo e tenta me alegrar. Bicho não é só consolo de jovem. Os velhos padecem de um isolamento gradativo devido à idade e ao culto da juventude que permeia a cultura ocidental na atualidade.