A Arte Poderá Causar Sofrimento?
Logo você receberá os melhores conteúdos em seu e-mail. O caso aconteceu no final de setembro, no Museu Guggenheim de Nova York, pouco antes do início da exibição Art and China after 1989: Theater of the World. Em resposta a uma série de protestos de associações de defesa dos animais, que incluíram uma petição de mais de 700 mil assinaturas, a direção do Guggenheim decidiu não apresentar três obras que estavam programadas pelos curadores. O fundamento é que elas são performances, ou registros de performances, que utilizam animais ou insetos vivos como meios pra aparecer a certos fins expressivos. Assim como nos casos ocorridos no Brasil, esse fato trouxe à tona dúvidas filosóficas muito relevantes sobre a subsistência de limites éticos para a ação dos artistas pela realização de tuas obras. É correto que a arte contemporânea tem algumas vezes o porte de um "vale-tudo". Entretanto será deste jeito mesmo?No proselitista mundo da arte, é pouco comum que tais perguntas sejam abordadas com real interesse. As lutas produzidas pela reação à performance do MAM notabilizam o efeito disso. De um lado, acusações de pedofilia, incitações e boatos de linchamento do artista, em meio a uma infinidade de objeções que rejeitam a arte contemporânea como um todo. De outro lado, artistas e críticos respondendo em bloco, muito seguros do que dizem, contudo raramente dispostos a valorizar as perguntas que os confrontam. No momento em que do fechamento da Queermuseu em Porto Alegre, argumentei que a arte não necessita ter limites, muito bem que as ações dos artistas não sejam sem limites.
Em um texto na revista Amálgama quase todo fabricado como crítica ao meu post, Elton Flaubert replicou que essa distinção é contraditória. Retomo nesse lugar esse conteúdo para esclarecê-lo melhor, uma vez que se trata de uma ideia sério e, na verdade, muito descomplicado. O que quis discursar é que o início da independência de frase deve a todo o momento sobressair, porém isto não justifica que os artistas possam fazer qualquer coisa para chegar aos resultados que desejam. Podemos reflexionar essa diferença por meio de uma apropriação livre do conceito de procedimento, fabricado em outros termos pelo teórico formalista Viktor Chklovski. Antes de ser uma obra, toda obra é uma série coordenada de processos, ações deliberadas, aplicações de convenções imediatamente existentes, assimiladas e certamente modificadas pelo artista. Na lógica formalista, a obra é sempre um efeito, ou melhor, ela surge assim que os procedimentos são interrompidos.
No momento em que o pintor escreve a tua assinatura em um quadro recém-terminado, seu gesto estabelece o nascimento de uma nova obra. Aproveitando a oportunidade, veja bem como este outro blog, trata de um tema relativo ao que escrevo nesse post, poderá ser vantajoso a leitura: Obtenha Mais. Pela arte contemporânea, todavia, existem muitos casos em que essa gênese já não podes ser conhecida. Os happenings e enorme fração das instalações e performances, por exemplo, declaram que a arte poderá haver só como procedimento, e não como "obra". A bem da verdade, a distinção entre obra e procedimento é ainda mais complexa do que expus acima.
A partir do clássico estudo a respeito da reprodutibilidade técnica de Walter Benjamin, escrito nos anos 1930, poderíamos até perguntar se existem "obras" no cinema. Desigual de um quadro pela parede, o video é um acontecimento que depende, no mínimo, de um projetor, sistema de som, uma superfície branca e uma sala escurecida.
Sabemos que a Monalisa original está exposta no Museu do Louvre. Um vídeo, entretanto, tem que ressurgir a cada nova exibição - ele não tem um original. Essa ação reiterada de trazer um vídeo à existência não seria a todo o momento um procedimento? A despeito de no momento em que começam ou terminam, os procedimentos são indispensáveis pra arte.
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Nesse significado, poderíamos expressar que existe arte que não é "obra", porém não existe arte que não envolva um procedimento. Mesmo que um artista cruze os braços numa performance, para não fazer nada, isto neste momento é um procedimento. Entretanto podemos destinar-se além. Segundo imagino, a ideia de procedimento nos ajuda a definir tensões entre a liberdade da arte e os limites éticos das ações dos artistas. Os procedimentos usados por Sun Yuan e Peng Yu, ao admitirem o desgosto dos animais, não seriam eticamente condenáveis? Sun Yuan e Peng Yu: instalação ultrapassou limites éticos?
Dúvidas éticas sobre o exercício de animais pela arte não são uma novidade. Esses casos são bastante diferentes entre si, entretanto deixam acompanhar uma linha de problematização da arte contemporânea que me parece legítima. No momento em que os procedimentos dos artistas impõem desgosto a seres sencientes, imagino que é possível questioná-los de um ponto de vista ético.
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